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Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
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Tema do mês de dezembro de 2002

Desafios do trabalho em rede *

* Vivianne Amaral, facilitadora e secretaria executiva da Rede Brasileira de Educação Ambiental (REBEA), gerente do projeto Tecendo Cidadania/FNMA (rebea@uol.com.br)

Se preferir, faça o download da íntegra do texto.

1 INTRODUÇÃO

            "Redes são uma forma de organização que implica um conteúdo de natureza emancipatória e não outro. Redes são a tradução, na forma de desenho organizacional, de uma política de emancipação. Não pode haver distinção entre os fins dessa política e os meios de empreendê-la".
            Cássio Martinho

A Rede Brasileira de Educação Ambiental é hoje uma rede de redes de educadores. Faz a articulação nacional das redes estaduais e locais. Todos seus facilitadores participam de redes locais ou de núcleos de formação de novas redes. A configuração atual é uma evolução natural no processo de organização de redes na comunidade de educadores ambientais. Trabalha com difusão de informação para educadores ambientais, por meio de site e lista de discussão e na sustentação da malha de contatos entre rede e educadores ambientais do Brasil inteiro. Tem como objetivos centrais a difusão da cultura organizacional em padrão de rede e o apoio ao desenvolvimento da Educação Ambiental. Nasceu da necessidade de compartilhar conhecimentos e informações e de articular, ao nível nacional, as pessoas e instituições que atuam na área de Educação Ambiental.

Os dez anos de história da REBEA são dez anos de teste da força mobilizadora de uma idéia: a de que é possível vivenciar outras formas de organização e de relações de poder que não contradigam, em sua natureza e prática, as propostas democráticas, emancipadoras da Educação Ambiental. Muito da energia ainda tem sido empregada para vencer a cultura tradicional a que estamos acostumados e que vivemos nas nossas instituições. Nesse sentido, a experiência de implementar a cultura organizacional de rede revela-se uma experiência política transformadora. É claro que a rede simbiótica, ideal, na qual todos colaboram de foram permanente, não existe, é ilusória. O que há é um esforço individual e coletivo para superação da cultura autoritária, um aprendizado permanente querendo construir novas relações humanas.

Trabalhar em rede traz grandes desafios pessoais e profissionais, pois a evolução no domínio das técnicas de comunicação, o uso habilidoso e criativo das ferramentas tecnológicas, a revolução cultural, a internalização dos fundamentos, não podem ser processos apenas individuais, têm que ser coletivos, pois não se faz uma rede sozinho. Se há um espaço em que não se cresce sozinho é o das redes. E compartilhar é a estratégia do crescimento conjunto.

A necessidade de compartilhar está na gênese da formação das redes, tanto na natureza quanto na sociedade. Gyorgy Doczi (1990), em O poder dos Limites: harmonia e proporções na natureza, arte e arquitetura, demonstra que o compartilhar, "como um processo básico da formação de padrões, molda relações harmoniosas na vida humana e animal, da mesma forma que o faz na anatomia, na música e nas outras artes. ... Realmente existe um mana do compartilhar na Natureza. Isso não é mágica: é o mana do compartilhar que é a própria natureza da Natureza".Existe uma anatomia propícia ao compartilhar: é a estrutura em rede.

De uma forma bem direta e simples, Castells define rede como "um conjunto de nós interconectados. Nó é o ponto no qual uma curva se entrecorta." A arquitetura das relações em redes e sua emergência na sociedade contemporânea configuram o fazer das vanguardas atuais, no campo da economia, da pesquisa e do conhecimento, dos movimentos sociais e da política. Presente na natureza em todos os tamanhos e com configurações variadas, a morfologia da rede só se tornou visível, óbvia como padrão organizacional, com a evolução social e intelectual rumo à percepção da complexidade e com desenvolvimento das tecnologias da informação. Configurando estruturas abertas, não-circulares, com expansão ilimitada, as redes representam hoje importantes instrumentos de organização, articulação e mobilização social.

Os maiores desafios são apresentados no campo político das relações internas. A estrutura horizontal em rede rompe com as relações tradicionais, piramidais, de poder e de representação, possibilitando vivenciar nas relações sociais e políticas as idéias e princípios emancipatórios, de empoderamento de pessoas e organizações. Organizar-se em rede resgata a radicalidade de propostas libertárias e a fé no ser humano como um ser de fraternidade e liberdade. Na rede, o poder que tradicionalmente é vivido como poder sobre os outros ou sobre as estruturas surge como potência para realizar coletivamente.

No movimento ecológico observamos a evolução em direção à complexidade quando acompanhamos sua articulação, num primeiro momento, em assembléias estaduais permanentes de entidades ecologistas (apenas ecologistas não governamentais participavam), depois os fóruns, reunindo ecologistas e movimentos sociais diversos e, atualmente, as redes, possibilitando a convivência de pessoas físicas e jurídicas, entidades governamentais e não-governamentais, universidades, movimentos sociais, grupos organizados. As duas primeiras instâncias são estruturas piramidais com base estendida, ainda marcadas pelas relações tradicionais de poder e pela competição1, enquanto que nas redes ensaia-se uma nova experiência de convívio político, gerada pela horizontalidade, pela descentralização, pela desconcentração do poder e pelo aspecto não representativo. O que não implica em não haver conflitos e disputas, mas a forma de resolução destes investe na desconcentração e na horizontalidade.

A proliferação de redes caracteriza a movimentação atual das organizações no espaço público. Percebe-se a evolução em direção à complexidade nas abordagens e propostas com opção de estruturas organizacionais que permitam a diversidade, o compartilhamento de objetivos comuns, mantendo-se as diferenças de identidade. A organização em rede permite esta liberdade.

Ao mesmo tempo e até por isso, a redes questionam frontalmente as relações interpessoais e interinstitucionais de poder. Participar verdadeiramente de uma rede implica em aceitar o desafio de rever as formas autoritárias de comportamento as quais estamos acostumados e que reproduzimos (como dominadores e como subordinados) apesar dos discursos e intenções democratizantes. Numa rede tem poder quem tem iniciativa. Assim, a localização do poder muda constantemente e não se concentra num só lugar. Esse fenômeno causa um certo atordoamento, já que estamos acostumados a obedecer ou mandar, a partir de funções fixas, determinadas hierarquicamente. Não estamos acostumados a decidir e compartilhar. Não temos o hábito de conviver com diversos focos de poder atuando simultaneamente e de forma independente, compartilhando objetivos comuns, numa só estrutura. Sempre queremos ter o conforto de uma instância central que tome as iniciativas, decida e assuma as responsabilidades. Nas redes, temos que ir além da prática da consulta democrática e precisamos de vários focos de iniciativas, de multi-lideranças. Autonomia e insubordinação são conceitos chaves. Nesse sentido, participar de uma rede, com radicalidade, assumindo seus fundamentos, representa uma revolução política individual, uma nova forma de organizar e vivenciar espaços de poder.

A matéria prima das redes é a vontade das pessoas, sua disponibilidade em vivenciar essas novas situações. Um imaginário convocante, sedutor, que inclua os sonhos, objetivos e necessidades é fundamental, pois é ele que dá a direção comum. O alimento da malha da rede é a circulação da informação que apóie a realização dos objetivos compartilhados.

Mas apenas as boas intenções não bastam para movimentar e dar sustentabilidade às redes. Nem para sairmos da estrutura piramidal com base estendida.É necessário que pessoas sejam preparadas, formadas para as tarefas de sustentação, para manter a malha íntegra, o fluxo contínuo. Sejam chamados de facilitadores, animadores, cabeças de rede ou re-editores, essas pessoas necessitam do desenvolvimento de competências, do domínio de instrumentos e técnicas de comunicação e mobilização, da internalização dos fundamentos da nova cultura organizacional.

Procurando um perfil para identificar o que seria um facilitador (quais as características dessa pessoa? Quais as habilidades, quais as competências para essa nova liderança?) encontrei em Bernardo Toro, filósofo e educador colombiano, o conceito que considero o mais aproximado da função do facilitador. Segundo Toro essa pessoa, tem, "por seu papel social, ocupação ou trabalho, a capacidade de re-adequar as mensagens, segundo circunstâncias e propósitos, com credibilidade e legitimidade, é uma pessoa que tem público próprio, que é reconhecido socialmente, que tem a capacidade de negar, transformar, introduzir e criar sentidos frente a seu público, contribuindo para modificar suas formas de pensar, sentir e atuar." Toro considera que o re-editor é diferente dos chamados multiplicadores, pois ele não reproduz os conteúdos que recebe, mas os interpreta e amplia, adequando-os ao seu público. Considera-o também diferente do militante tradicional porque enquanto o campo de atuação deste é o mundo, o campo do re-editor é o cotidiano. Segundo ele, o re-editor acredita no convencimento de cada um, o militante na conversão, na adesão.

A formação de facilitadores, capazes de constituírem nós das redes, dando sustentabilidade ao tecido que constitui a sua totalidade orgânica, é um desafio urgente. Só assim poderemos realizar a desconcentração do poder, a insubordinação, a multi-liderança, a conectividade e o fluxo permanente de informação, a participação e a cooperação, aspectos fundamentais das estruturas em rede.

As redes não substituem as organizações piramidais e não são alternativas viáveis para todos os tipos de organizações e objetivos. É impensável um igreja ou um exército com a organização horizontal. No entanto, as redes são estruturas adequadas a todos os objetivos de empoderamento e emancipação da sociedade, o que explica o interesse que têm para os educadores ambientais, comprometidos com a consolidação de cidadania local e planetária.


Bibliografia:

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p 498.

DOCZI, Gyorgy. O poder dos limites: harmonias e proporções na natureza, arte e arquitetura. São Paulo: Mercuryo.1990, p77.

FACHINELLI ,Ana Cristina, MARCON Christian e MOINET, Nicolas. A prática da gestão de redes: uma necessidade estratégica da Sociedade da Informação. Rede Brasil de Comunicação Cidadã [on-line] Disponível na Internet - http://www.rbc.org.br

MARTINHO, Cássio. Redes e desenvolvimento local. Rede Brasil de Comunicação Cidadã [on-line] Disponível na Internet http://www.rbc.org.br

TORO, Jose Bernardo e Duarte, Nísia Maria. Mobilização Social: um modo de construir a democracia e a participação. (xerox)


1 Com um controle central de onde emanam as ordens, com poder de representação externa. As disputas internas são freqüentes e a forma de resolução dos conflitos na disputa pelo poder central é de exclusão dos diferentes.
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