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Tema do mês de março de 2000

Como melhorar o trabalho em equipe

Se quiser, faça o download da íntegra do texto.

Mudanças no trabalho

O universo em que atuam as organizações do terceiro setor vem colocando crescentes desafios para o trabalho que desenvolvem. Por um lado, vemos que as demandas sociais crescem e se multiplicam, tendo em vista a orientação adotada pelo Estado no Brasil quanto à questão social. Por outro, estão mais complexas as relações políticas envolvendo as organizações: aumenta a necessidade de relacionamento com instâncias de governo, diversificam-se as disputas entre múltiplos atores envolvidos na formulação e implementação de políticas públicas, novos sujeitos surgem e tentam influir em decisões.

Isto significa que as questões a que as organizações respondem precisam ser compreendidas em seu caráter estrutural, para que seja possível dar sentido a ações de caráter específico. Compreender o todo implica considerar os múltiplos aspectos da realidade com que se trabalha.

Neste sentido, está colocada para as organizações do terceiro setor a necessidade de abordar os problemas de maneira multidisciplinar. A questão da saúde, por exemplo, não pode ser analisada somente através de um único enfoque, pois envolve a moradia, o trabalho, a educação, a participação política, para ficarmos em alguns exemplos. Qualquer que seja o aspecto privilegiado, será insuficiente para dar conta da complexidade da saúde no contexto de extrema desigualdade que nos caracteriza.

Ao lado deste aspecto, as organizações estão diante da produção de um volume vertiginoso de informações nos mais variados campos de estudo, de um processo acelerado de tal produção, assim como de novas possibilidades de acesso ao conhecimento. Se, por um lado, são informações que interessam e podem ser úteis ao desenvolvimento dos projetos do terceiro setor, são também capazes de gerar mais confusão do que conhecimento.

Estes fatores fazem com que o trabalho em equipe se torne mais complexo, assuma novas dinâmicas e exija redefinições nos papéis que pessoas e equipes desempenham, principalmente no que diz respeito à gestão de projetos.

A equipe de trabalho e de relacionamentos

A partir do momento que enfoques de múltiplas disciplinas passam a operar na mesma organização, ou no mesmo projeto, maiores são as chances de conflitos e, portanto, maior necessidade de negociar soluções. Se o resultado pode ser a inovação, com a possibilidade de soluções mais ricas, o tempo e a dedicação necessários ao bom funcionamento da equipe também são maiores.

Na medida que são incluídas pessoas que trazem abordagens distintas à experiência de uma equipe, como colocar tais talentos a serviço do projeto ou da instituição?

Uma primeira aproximação possível é reconhecer que toda equipe de trabalho é também um espaço de relacionamentos. É durante o trabalho que se explicitam características pessoais, interesses e preferências, posturas de várias ordens (ideológicas, acadêmicas, histórias de vida), implicando em necessidade de conhecê-los e combiná-los aos objetivos de um projeto ou de uma organização. Ao mesmo tempo, trata-se de criar um ambiente em que seja possível que as pessoas desenvolvam relacionamentos positivos e valorizados; é também no trabalho que conceitos e autoconceito são desenvolvidos. Equipes são fonte de auxílio e apoio, de troca de afetos diversos, de encontros e desencontros.

Novas relações

As equipes não nascem maduras e produtivas. De certa forma, talvez nunca o sejam. Uma equipe que funcione é sempre uma busca, uma aproximação. O ideal é que a cooperação oriente as ações de seus integrantes, sendo possível que interpretações divergentes possam conviver e formular novas idéias e maneiras criativas de atuar.

Desta forma, todas as pessoas precisam ter uma visão ampla do que estão fazendo, perceber o impacto de sua atuação no todo. O foco de atuação de cada um se amplia; ao invés de realizar atividades isoladas, passa-se a valorizar os resultados que a equipe, como conjunto, é capaz de gerar para fora (o público com que se trabalha, os parceiros, a opinião pública etc) e para cada um dos indivíduos envolvidos.

Neste sentido, cresce a importância de serem definidos objetivos claros e de pactuar prioridades; cresce, também, a necessidade de planejar coletivamente o processo necessário a atingir os objetivos, aproveitando os talentos e experiências existentes no grupo e evitando duplicações. A contribuição individual e seu impacto no trabalho da equipe são mais facilmente compreendidos, aumentando a participação e o envolvimento. A troca de informações entre os membros da equipe precisa ser organizada de maneira dinâmica, de forma que os canais de comunicação disponíveis possam ser melhor utilizados. Finalmente, a ênfase passa a ser em resultados compartilhados, ao invés de um conjunto de resultados individuais.

Ao modificar o caráter do trabalho em equipe, muda, fundamentalmente, o papel do coordenador de um programa ou projeto. Sua responsabilidade passa a ser pelo processo como um todo. Deve ser capaz de captar o sentido da equipe e de deixar que ela própria se organize e proponha soluções. Em certo sentido, deixa de ser o centro de decisões, o que permite que apareçam outras lideranças relevantes para o que se quer realizar. Sua melhor atuação está em levantar as questões chave para o projeto ou para a organização. Que lições aprendemos? O que podemos aprender com o trabalho na prática? Por que está funcionando? Por que não está? Como fazer melhor da próxima vez? Que novos desafios esta realidade nos coloca?

Por fim, coloca-se como necessidade organizar a memória do trabalho da equipe, de forma que as informações estejam disponíveis para todos e que possam ser compartilhadas de maneira rápida e prática. Se existe autonomia entre os membros da equipe, é esperado que participem com novas propostas ao longo do trabalho, aproveitando oportunidades.

No fundamental, o que se pode esperar de uma equipe que seja capaz de criar soluções e de direcionar seus melhores esforços a objetivos comuns é que os resultados apareçam em várias frentes: beneficia os públicos com que a organização se relaciona, as pessoas individualmente e a própria imagem institucional.

 

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