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gestao@rits.org.br

Tema do mês de agosto de 2004

Título do tema: Notas sobre elaboração de projetos

Por: Flávia Neves

Versão para download: Tema do mês de agosto de 2004

Pode parecer simples, óbvio e até mesmo tarefa que qualquer um pode fazer, mas, na realidade, na hora de escrever um projeto, devemos nos dedicar a reunir informações confiáveis e relevantes1 para a construção de uma boa proposta. Observamos que só se aprende a escrever um projeto escrevendo, pois exercitando é que aprimoramos a prática na elaboração de projetos, seja ele pensado individualmente ou coletivamente.

Devido à grande dificuldade encontrada na hora de organizar uma proposta para captar recursos - envio de um projeto para uma agência de financiamento -, propomos no texto a seguir um roteiro no qual estão citados os elementos que devem constar numa proposta de projeto.

Tenha sempre em mente que elaborando uma boa proposta, clara, detalhada e completa, esta poderá ser aproveitada na hora de preencher formulários oferecidos pelas organizações para recebimento de projetos ou mesmo adaptada para abordar mais de um apoiador.

Vale lembrar que enviar propostas para concursos e prêmios é um excelente exercício.

Roteiro:

1. Apresentação

Deve conter uma breve descrição da instituição, com o histórico, a missão, a visão, os objetivos, seu público-alvo e - se houver - os títulos que possui. Por exemplo: Utilidade Pública, OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) ou CEBAS (Certificado de Entidades Beneficente de Assistência Social).

2. Justificativa

É o espaço onde serão expostos os fatores que nos levaram a desenvolver uma proposta de intervenção, argumentando com base em dados (estatísticas ou estudos científicos) a necessidade de uma atuação na realidade apresentada e ainda como essa atuação poderá modificá-la.

3. Objetivos - geral e específico

Aqui deve ser apresentado o que se espera alcançar. As mudanças/alterações que o projeto promoverá numa determinada realidade. Neste item é importante indicar objetivos e metas que sejam realmente possíveis de serem alcançados, observando, principalmente, os recursos programados e o tempo estimado no cronograma.

4. Problematização

Deve ser rica e, ao mesmo tempo, objetiva. Deve conter dados de estudos que justifiquem a atuação em uma determinada realidade/público-alvo. A observância da realidade e das possibilidades de intervenção deve deixar claro o problema que se pretende responder, delimitando-o temporal e espacialmente. Por exemplo: se o projeto abordar a questão de crianças em situação de rua, é importante informar os dados, indicadores desse público, problemáticas sofridas.

5. Público-alvo

É aquele que se pretende atingir com o projeto e deverá ser especificado, se possível, com apresentação de dados numéricos e população definida. Exemplos: meninos e meninas da região metropolitana do Rio de Janeiro, portadores de HIV, e suas famílias.

6. Metodologia

Espaço destinado a descrever as ações e procedimentos/estratégias que serão implementadas durante o projeto. Lembramos mais uma vez a importância de dissertar com objetividade e clareza, mas sem deixar de informar todos os processos que serão necessários para a execução do projeto.

7. Resultados esperados

Sabemos que nem sempre é fácil mensurar resultados de ações sociais, porém hoje contamos com alguns indicadores que podem ser utilizados para apresentar metas a serem alcançadas. O ideal é buscar informações atuais da realidade a ser enfrentada e, a partir dela - e com base na metodologia escolhida -, apresentar quais os resultados esperados após a intervenção.

8. Cronograma

No cronograma é desejável que os períodos para execução de todas as etapas do projeto sejam coerentes, dentro da realidade, para evitar o não cumprimento de prazos, ou ainda que sejam superestimados, o que pode indicar pouco dinamismo e "descolamento" da realidade. Se isso não for possível, devemos estimar sua duração como um todo e suas principais etapas.

Os projetos geralmente têm duração de um a dois anos, podendo haver prorrogações. O mais indicado é que se estabeleçam ciclos de atividades - etapas - que possam apresentar resultados parciais, não comprometendo assim todo o projeto.

9. Recursos (financeiros e profissionais)

É o espaço em que apresentamos uma estimativa dos custos do projeto.

Recurso é tudo aquilo que é necessário para a execução de todo o projeto, ou seja, o salário de um profissional, o trabalho de um voluntário, material de escritório, telefone e outras despesas que serão necessárias para o desenvolvimento do projeto.

Separe as despesas em "categorias" - grupos e subgrupos como, por exemplo, um item para mão-de-obra, outro para escritório, outro para materiais de uso direto, transporte.

Ou ainda por etapa do projeto, mas também separando por tipo de despesas (mão-de-obra, materiais, gastos diretos).

Essa organização facilitará na hora da prestação de contas.

Faça uma cotação de custos para poder informar ao possível financiador um orçamento justo.

Algumas dicas:

- Uma das maneiras de mostrar a credibilidade e afirmar a legitimidade de sua organização é destacar as entidades que a apóiam, as redes das quais faz parte, parcerias que desenvolve, assim como ter como prática permitir o acesso ao balanço financeiro da organização.

- Indicar quais poderão ser os meios pelos quais o apoiador poderá acompanhar o andamento do projeto. Mostrar de antemão que as contas do projeto estarão sempre abertas para consultas e auditorias (accountability) é uma grande iniciativa, pois demonstra que a organização está disposta a ter transparência no decorrer do projeto.

- Algumas agências procuram saber sobre os colaboradores (funcionários) da organização, então é importante ter esta informação organizada e pronta para ser fornecida.

- Deve-se ter atenção especial para a temática abordada na hora de enviar uma proposta para uma agência de financiamento, para que esta esteja de acordo com a temática ou filosofia da instituição financiadora. Por isso é fundamental que busquemos informações sobre as organizações que iremos abordar, assim como é interessante verificar previamente os projetos financiados por estas agências.

- Vale a pena descrever um projeto que já foi ou está sendo implementado pela organização e que possa servir de demonstração de eficiência e sucesso.

- É uma boa idéia vislumbrar um projeto que possa ser replicado em outra região ou mesmo em diferente realidade cultural. Também é interessante pensar num projeto que possa chegar a ser transformado em política pública, ou que o mesmo venha a ser um instrumento de desenvolvimento social sendo aplicado em maior escala - e não se limite à manutenção de atividades que já são desenvolvidas pela organização.

- É importante também ter em mente a contrapartida que será dada por sua organização. Esta não é necessariamente recurso em espécie (dinheiro). São considerados como contrapartida a mão-de-obra, instalações, materiais, logística, entre outros.

- Deve-se ter especial atenção na revisão do texto do projeto, evitando erros gramaticais e de digitação. O ideal é pedir ajuda a um revisor. É importante dar um formato agradável ao texto, para que ele seja de fácil leitura. Não é necessário utilizar grandes recursos para ter um formato impresso do projeto, mas uma boa apresentação já traz impressões positivas no começo da avaliação.

- Não se deve esquecer de indicar a pessoa de contato do projeto - o profissional responsável, seus telefones, e-mail - para possíveis esclarecimentos.

Sugestões de leitura:

- Uma noção ampliada de captação de recursos

- Falta de bons projetos inibe a cooperação das grandes fundações

- Como estruturar melhor a atividade de captação de recursos?

- Apresentando projetos a agências de cooperação não-governamental

- Entrevista com Célia Cruz - contribuições para captadores de recursos

- Gestão de projetos: o que pode ser melhorado?

- Entrevista com Andrés Falconer - recursos privados para fins públicos

- Abertura a vaias e aplausos

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Flávia Neves é coordenadora das áreas de Centro de Estudos, Catálogo e Acervo da Rits.
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1 "De maneira geral, quanto mais você investe em pesquisa, maiores as suas chances de sucesso. Isso quer dizer que a pesquisa pode tomar até 50% do seu tempo disponível. Invista este tempo. O investimento paga ótimos dividendos". Claudia Amaral: 1999 http://www.rits.org.br/gestao_teste/ge_testes/ge_tmesant_out99.cfm
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