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Comunicação e Marketing - Noções gerais
Conceitos
básicos
Liliane
G. da Costa Reis
O
marketing foi inicialmente concebido como uma atividade de negócios,
com a intenção de aproximar produção e consumo.
De acordo com os princípios do marketing, uma empresa deveria estar
permanentemente voltada para seu ambiente, de forma a: (1) elaborar produtos
que atendessem as necessidades e desejos dos consumidores; (2) praticar
preços de acordo com o que os consumidores estivessem dispostos
a pagar; (3) tornar estes produtos acessíveis ao mercado, realizando
a distribuição adequada; e (4) comunicar aos consumidores
sobre a existência e benefícios de seus produtos. Nem sempre,
no entanto, foi esta a orientação adotada pelas empresas.
Mais recentemente é que as empresas passaram a basear-se no princípio
de que seu sucesso depende da escolha que o consumidor faz. Isto tem feito
com que o marketing se volte cada vez mais para fora da empresa, isto
é, que oriente-se pelas percepções, necessidades
e desejos do mercado-alvo para satisfazê-las através da elaboração,
comunicação, preço e distribuição de
ofertas apropriadas.
Philip
Kotler - um dos autores mais famosos nesta área - sustenta que,
embora os conceitos do marketing sejam utilizados principalmente pelas
empresas privadas, as organizações sem fins lucrativos podem
e devem utilizá-los para a realização de seus propósitos.
Isto não significa que as organizações passarão
a definir sua atuação a partir de critérios estranhos
à sua missão. Pelo contrário, significa que uma organização
sem fins lucrativos será bem sucedida se começar seu
planejamento de marketing por compreender as percepções,
necessidades e desejos dos públicos que pretende atingir e concentrar-se
em promover sua satisfação.
Vejamos
um exemplo: durante anos uma orquestra tentou aumentar sua audiência,
sem sucesso. Através de uma pequena pesquisa, soube que consumidores
que indicaram que poderiam ir a um concerto não o faziam porque
achavam que seria um evento formal. Além de acharem que não
possuíam roupas adequadas, tinham a percepção de
que a orquestra era distante do público. A partir destas informações,
a direção da orquestra deu um novo tratamento à experiência
de assistir um concerto: a orquestra passou a exibir-se em eventos ao
ar livre, vestindo-se à vontade; foram feitos contatos com escolas
primárias e secundárias e o maestro passou a aparecer na
TV e a conversar informalmente com a platéia em certos eventos.
Desta forma, o que mudou não foi o repertório nem os autores
selecionados, mas a maneira de apresentar a orquestra.
Esta
idéia - de mostrar a organização e o que ela faz
a partir da percepção de seus públicos - pode ser
extremamente valiosa quando se trata de obter apoio (seja ele financeiro
ou sob outras formas) dos públicos que se deseja atingir. A falta
desta percepção tem levado muitas organizações
a acreditarem que o público não responde simplesmente por
não conhecer suas atividades; passam a achar que a única
resposta é utilizar a comunicação e, mesmo assim,
não obtêm o sucesso desejado. Confundem marketing com comunicação,
quando esta é apenas uma parte do que o marketing pode realizar.
Como,
então, uma organização sem fins lucrativos pode beneficiar-se
do marketing? Em termos genéricos, interpretando seu ambiente externo
e adaptando-se continuamente a ele. Para isto, deve apoiar-se em: pesquisa,
segmentação, uma conceituação ampla de concorrência
e a utilização de todo o composto de marketing.
A
pesquisa deverá indicar o que os diferentes públicos atingidos
pela organização (usuários, beneficiários,
doadores) percebem sobre os serviços: Nossos serviços são
relevantes? O que dizem os públicos sobre nossos serviços
e atuação? Que imagem nossos públicos possuem de
nós? Há várias imagens? O que nossos públicos
falam de nós para outras pessoas? Como somos vistos pelos públicos
que não nos conhecem de perto?
A
segmentação diz respeito a identificar grupos com características
distintas entre si e a estabelecer objetivos com relação
a cada um deles. Que grupos já atingimos? Que grupos importantes
ainda não atingimos? Quais são as necessidades de cada segmento?
A
concorrência não se dá somente entre organizações
que produzem serviços semelhantes. No caso das Organizações
do terceiro setor, busca-se a formação de espaços
de atuação comuns - redes, fóruns - onde se reforçam
laços de solidariedade e de complementaridade. O sentido de concorrência,
em conseqüência, deve ter o sentido amplo de que estas organizações
enfrentam uma concorrência com respeito a valores na sociedade.
Quem concorre conosco em serviços, recursos dos públicos,
atenção na mídia? Que benefícios apresentam
aos públicos que temos e que queremos atingir? O que faz com que
os públicos dêem preferência a nós/aos concorrentes?
Que parcerias podemos formar para neutralizar a concorrência? O
que podemos usar a nosso favor para garantir a adesão dos públicos
a nossos valores e projetos?
O
chamado composto de marketing - produto, preço, distribuição
e comunicação - trata do quê e de como a organização
faz e fará em termos de serviços. Esta é a fase do
planejamento.
Produto
- Em termos genéricos, é tudo que uma organização
desenvolve para oferecer a um determinado grupo de pessoas (uma idéia,
valores, serviços, publicações etc) para satisfazer
uma necessidade ou desejo. Desta forma, pode-se dizer que todas as organizações
possuem produtos. Aqui, o importante é determinar claramente a
que necessidades ou desejos de cada público uma organização
está respondendo. Sabemos que as pessoas possuem necessidades
(físicas, sociais e individuais) e desejos (criados por
características culturais e individuais) que precisam ser satisfeitos
e que elas dispõem de recursos limitados para satisfazê-los. Portanto,
escolhem produtos que proporcionem o máximo de satisfação
possível em troca destes recursos. Assim, produtos são vistos
como um conjunto de benefícios e não somente pelo
que aparentam fisicamente.
Nem
sempre estas necessidades estão claramente estabelecidas pelos
públicos de uma organização. Do ponto de vista do
marketing, poderíamos dizer que a campanha contra a fome iniciada
por Betinho veio ao encontro da necessidade que os brasileiros tinham
de participar da solução de um problema que aflige a todos
nós. Talvez os 5 milhões de participantes da campanha não
tivessem clareza sobre esta necessidade, mas a análise realizada
por Betinho a detectou, mesmo que estivesse encoberta por outros aspectos.
Os benefícios percebidos pelos diversos grupos em participar da
campanha foram os mais diversos (uma vez que não havia formas pré-estabelecidas),
o que gerou ampla adesão ao apelo feito.
Outro
aspecto a ser considerado é que produtos podem perder a razão
de ser ao longo do tempo, pois as necessidades mudam. Quando uma organização
define sua missão a partir de seus produtos atuais (visão
interna) e não das necessidades de seus públicos (visão
externa), perde de vista que seus produtos precisam ser atualizados, que
novos precisam ser criados e alguns até mesmo extintos.
Preço
- No caso das organizações sem fins lucrativos, isto
diz respeito às necessidades de recursos para cobrir seus custos
e para desenvolver novos projetos. Nem sempre é possível
cobrar diretamente dos públicos atingidos pelos serviços
que prestam e tais organizações precisam arrecadar fundos para garantir sua manutenção
e desenvolvimento. No entanto, isto não significa que não
possam estabelecer estratégias de preço. É importante
considerar os benefícios gerados por sua ação e quanto
cada público está disposto a pagar por eles. Isto vale tanto
para grupos beneficiários quanto para doadores e financiadores.
Distribuição
- Esta estratégia trata de tornar os produtos da organização
acessíveis aos seus públicos. Lembre-se: organizações
concorrentes podem ser mais eficazes em tornar serviços semelhantes
acessíveis. É necessário analisar através
de que canais os serviços estarão disponíveis. Canais
próprios, redes de parceria, serviços descentralizados são
algumas das opções a serem consideradas.
Comunicação
- Tendo em vista as definições das estratégias anteriores
é que se planeja o esforço de comunicação:
os melhores meios para atingir cada um dos públicos previstos,
o tipo de mensagem a ser utilizada, a freqüência com que estas
mensagens serão veiculadas, durante quanto tempo. O esforço
de comunicação deve ser constantemente avaliado, para que
se possa saber se os objetivos da comunicação estão
sendo alcançados.
Sintetizando,
a administração de marketing pode ser definida como a análise,
planejamento, implementação e controle de programas destinados
a criar, desenvolver e manter trocas com os públicos-alvo, com
o propósito de atingir os objetivos da organização.
Portanto, as organizações sem fins lucrativos podem praticar
o marketing, se esta atividade for pensada de forma integrada e com objetivos
claros a atingir.
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