Captação de recursos - Noções gerais
Uma noção ampliada de captação de recursos
Leandro
Lamas Valarelli
A
captação de recursos, apesar de ser uma preocupação
constante de várias organizações sem fins
lucrativos, ganhou nos últimos anos enorme importância e
passou a ser vista como uma ação que deve ser levada a cabo
com uma dose maior de profissionalismo. Os recursos governamentais e da
cooperação internacional (governamental e não governamental)
vêm sendo reduzidos ou, na sua maioria, se tornando restritos a
certos temas, regiões ou a projetos, ao invés do
apoio direto à organização como um todo. Além
disso, a valorização do papel das ongs e das organizações
sem fins lucrativos em geral ocorrida após a Conferência
Rio 92 provocou a proliferação de iniciativas e de novas
organizações, que passaram a solicitar e a disputar estes
mesmos recursos, cada vez mais escassos. Ampliar as fontes de recursos
torna-se crucial para que as organizações possam, além
de sobreviver, desempenhar um papel relevante junto aos seus públicos
e à sociedade em geral.
Uma boa
estratégia de captação de recursos também
contribui para que uma organização seja mais autônoma
frente às mudanças ou exigências por parte das fontes
de financiamento, com maior capacidade de manter sua identidade e não
abrir mão de sua missão e valores. Mais do que auto-sustentação
– que foi um conceito que virou moda no universo das ongs há alguns
anos – trata-se de garantir a sustentabilidade dos propósitos
e iniciativas da organização, através da ampliação
e diversificação das fontes de recursos. Deste modo, reduzem-se
a vulnerabilidade e a subordinação tão comuns quando
se depende de poucas fontes financiadoras.
Nesta
busca da sustentabilidade, muitas organizações brasileiras
têm buscado capacitar-se. Mas é comum vermos a captação
de recursos ser reduzida à captação de fundos financeiros
e restrita a duas grandes práticas: a de elaboração
de projetos de financiamento e a de realização de ações
permanentes ou campanhas para angariar contribuições financeiras
de indivíduos ou empresas (fundraising). Sem dúvida,
são práticas importantes e devem ser conhecidas e implementadas
de modo competente. Mas uma política de captação
de recursos apoiada apenas nestas duas modalidades pode revelar-se bastante
limitada. Dependendo da organização e de seu contexto, até
mesmo inadequadas. A elaboração de projetos, por mais competente
que seja, enfrenta o problema da finitude das fontes de financiamento
e da escassez de recursos cada vez maior. As campanhas visando a arrecadação
de fundos ou contribuições permanentes, por sua vez, exigem
uma forte competência da organização em planejamento,
gestão e marketing, além de gerarem recursos apenas a médio
e longo prazos. Além disso, as condições econômicas,
institucionais, políticas e culturais brasileiras são bastante
limitantes. A redução do poder aquisitivo de grande parte
da população brasileira, a pouca tradição
de contribuição financeira para projetos e causas sociais,
o impedimento legal a pessoas físicas de abaterem suas contribuições
nos impostos, entre outros fatores, tornam mais complexa, embora não
impossível, a tarefa de convencimento de indivíduos e empresas
a investirem financeiramente em projetos sociais.
Considerando
as condições brasileiras de um modo geral, a captação
de recursos de uma organização será tão mais
eficaz quanto mais ampla for a sua noção de recursos
e quanto mais diversificada, criativa e adequada às suas características
e ao ambiente externo for a sua estratégia. Ampliar a noção
de recursos significa pensar para além de recursos financeiros.
Recursos humanos qualificados, tecnologias, infra-estrutura e equipamentos
também fazem parte das necessidades de uma organização
e podem ser obtidos através da mobilização de trabalho
ou serviço voluntário, de patrocínios, da cessão
e/ou doação de infra-estrutura e equipamentos, da venda
de produtos, da prestação de serviços e de empreendimentos
geradores de receitas.
Como se
trata de um esforço de convencimento dos outros de que vale a pena
investir e apoiar o seu trabalho, seja de que modo for, a captação
de recursos estará fortemente associada às estratégias
mais amplas de sua instituição, envolvendo definições
quanto à sua Ação
(projetos e serviços) , ao marketing,
e às Parcerias.
Embora cada modalidade de atuação na captação
de recursos (campanhas, projetos, voluntariado, etc.) exija conhecimentos
e técnicas adequadas, algumas coisas são fundamentais para
todas elas: ter uma missão e identidade claras, reconhecidas e
valorizadas pelos outros; ter bem definidos seus projetos, serviços
e ações; ter boa capacidade de apresentar o que sua organização
faz, com ética e transparência; conhecer bem o público
que é ou pode vir a ser simpático à sua atuação;
saber identificar as suas necessidades de recursos e junto a quem obtê-los;
saber como comunicar-se com seus possíveis apoiadores, informando-os,
sensibilizando-os, indicando como podem contribuir e a importância
desta contribuição; ter um bom procedimento de planejamento
e organização das ações de captação;
saber manter e cultivar os relacionamentos construídos.
Deste modo,
além dos recursos necessários, sua organização
terá conseguido também um patrimônio muito valioso:
o compromisso e o engajamento de uma rede de indivíduos, empresas
e organizações que se sentirão co-responsáveis
por aquilo que é feito. Suas ações, propostas e idéias
certamente irão mais longe.
Leia outros textos sobre o assunto
Código de Princípios Éticos e Padrões da Prática Profissional - NSFRE - EUA.
Estatuto dos Direitos do Doador.
Como estruturar melhor a atividade de captação de
recursos? Tema do mês de outubro de 1999
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