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Sábado, 4 de Julho de 2009
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Captação de recursos - Noções gerais

Uma noção ampliada de captação de recursos

Leandro Lamas Valarelli

A captação de recursos, apesar de ser uma preocupação constante de várias organizações sem fins lucrativos, ganhou nos últimos anos enorme importância e passou a ser vista como uma ação que deve ser levada a cabo com uma dose maior de profissionalismo. Os recursos governamentais e da cooperação internacional (governamental e não governamental) vêm sendo reduzidos ou, na sua maioria, se tornando restritos a certos temas, regiões ou a projetos, ao invés do apoio direto à organização como um todo. Além disso, a valorização do papel das ongs e das organizações sem fins lucrativos em geral ocorrida após a Conferência Rio 92 provocou a proliferação de iniciativas e de novas organizações, que passaram a solicitar e a disputar estes mesmos recursos, cada vez mais escassos. Ampliar as fontes de recursos torna-se crucial para que as organizações possam, além de sobreviver, desempenhar um papel relevante junto aos seus públicos e à sociedade em geral.

Uma boa estratégia de captação de recursos também contribui para que uma organização seja mais autônoma frente às mudanças ou exigências por parte das fontes de financiamento, com maior capacidade de manter sua identidade e não abrir mão de sua missão e valores. Mais do que auto-sustentação – que foi um conceito que virou moda no universo das ongs há alguns anos – trata-se de garantir a sustentabilidade dos propósitos e iniciativas da organização, através da ampliação e diversificação das fontes de recursos. Deste modo, reduzem-se a vulnerabilidade e a subordinação tão comuns quando se depende de poucas fontes financiadoras.

Nesta busca da sustentabilidade, muitas organizações brasileiras têm buscado capacitar-se. Mas é comum vermos a captação de recursos ser reduzida à captação de fundos financeiros e restrita a duas grandes práticas: a de elaboração de projetos de financiamento e a de realização de ações permanentes ou campanhas para angariar contribuições financeiras de indivíduos ou empresas (fundraising). Sem dúvida, são práticas importantes e devem ser conhecidas e implementadas de modo competente. Mas uma política de captação de recursos apoiada apenas nestas duas modalidades pode revelar-se bastante limitada. Dependendo da organização e de seu contexto, até mesmo inadequadas. A elaboração de projetos, por mais competente que seja, enfrenta o problema da finitude das fontes de financiamento e da escassez de recursos cada vez maior. As campanhas visando a arrecadação de fundos ou contribuições permanentes, por sua vez, exigem uma forte competência da organização em planejamento, gestão e marketing, além de gerarem recursos apenas a médio e longo prazos. Além disso, as condições econômicas, institucionais, políticas e culturais brasileiras são bastante limitantes. A redução do poder aquisitivo de grande parte da população brasileira, a pouca tradição de contribuição financeira para projetos e causas sociais, o impedimento legal a pessoas físicas de abaterem suas contribuições nos impostos, entre outros fatores, tornam mais complexa, embora não impossível, a tarefa de convencimento de indivíduos e empresas a investirem financeiramente em projetos sociais.

Considerando as condições brasileiras de um modo geral, a captação de recursos de uma organização será tão mais eficaz quanto mais ampla for a sua noção de recursos e quanto mais diversificada, criativa e adequada às suas características e ao ambiente externo for a sua estratégia. Ampliar a noção de recursos significa pensar para além de recursos financeiros. Recursos humanos qualificados, tecnologias, infra-estrutura e equipamentos também fazem parte das necessidades de uma organização e podem ser obtidos através da mobilização de trabalho ou serviço voluntário, de patrocínios, da cessão e/ou doação de infra-estrutura e equipamentos, da venda de produtos, da prestação de serviços e de empreendimentos geradores de receitas.

Como se trata de um esforço de convencimento dos outros de que vale a pena investir e apoiar o seu trabalho, seja de que modo for, a captação de recursos estará fortemente associada às estratégias mais amplas de sua instituição, envolvendo definições quanto à sua Ação (projetos e serviços) , ao marketing, e às Parcerias. Embora cada modalidade de atuação na captação de recursos (campanhas, projetos, voluntariado, etc.) exija conhecimentos e técnicas adequadas, algumas coisas são fundamentais para todas elas: ter uma missão e identidade claras, reconhecidas e valorizadas pelos outros; ter bem definidos seus projetos, serviços e ações; ter boa capacidade de apresentar o que sua organização faz, com ética e transparência; conhecer bem o público que é ou pode vir a ser simpático à sua atuação; saber identificar as suas necessidades de recursos e junto a quem obtê-los; saber como comunicar-se com seus possíveis apoiadores, informando-os, sensibilizando-os, indicando como podem contribuir e a importância desta contribuição; ter um bom procedimento de planejamento e organização das ações de captação; saber manter e cultivar os relacionamentos construídos.

Deste modo, além dos recursos necessários, sua organização terá conseguido também um patrimônio muito valioso: o compromisso e o engajamento de uma rede de indivíduos, empresas e organizações que se sentirão co-responsáveis por aquilo que é feito. Suas ações, propostas e idéias certamente irão mais longe.

Leia outros textos sobre o assunto

  • Código de Princípios Éticos e Padrões da Prática Profissional - NSFRE - EUA.

  • Estatuto dos Direitos do Doador.

  • Como estruturar melhor a atividade de captação de recursos? Tema do mês de outubro de 1999

     

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